terça-feira, 10 de abril de 2012

Os donos da terra

"Antigamente não havia civilizados, mas apenas índios. Uma mulher indígena ficou grávida. Toda vez que ela is tomar banho no ribeirão próximo da aldeia, seu filho, que ainda não havia nascido, saía de seu ventre e se transformava em animais, brincando à beira d'água. Depois voltava outra vez ao ventre materno. A mãe não dizia nada a ninguém. Um dia o menino nasceu. Era Aukê. Ainda recém nascido, transformava-se em rapaz, em homem adulto, em velho. Os habitantes da aldeia temiam os poderes sobrenaturais de Aukê e, de acordo com seu avô materno, resolveram matá-lo. As primeiras tentativas de liquidá-lo não tiveram sucesso. Uma vez, por exemplo, o avô o levou ao alto de um morro e empurrou-o de lá no abismo. O menino, porém, virou folha seca e foi caindo devagarinho, voltando são e salvo para a aldeia. Até que o avô resolveu fazer uma grande fogueira e nela atirá-lo. Dias depois, quando foi ao local do assassinato para recolher as cinzas do menino, achou lá uma casa grande de fazenda, com bois e outros animais domésticos: Aukê não havia morrido, mas sim transformara-se no primeiro homem civilizado. Aukê ordenou, então, ao avô, que fosse buscar outros habitantes da aldeia. E eles vieram. Quando Aukê os fez escolher entre a espingarda e o arco, os índios ficaram com medo de usar a primeira, preferindo o segundo. Por terem preferido o arco, os índios permaneceram como índios. Se tivessem escolhido a espingarda, teriam se transformado em civilizados. Aukê chorou com pena dos índios não terem escolhido  a civilização." (J. C. Melatti, Índios do Brasil, Editora de Brasília, págs. 27-28)
Aí está resumido o mito das várias tribos Timbira, do grupo Jê, que habitam o sul do Maranhão e o norte de Goiás, a respeito da origem dos brancos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Bertolt Brecht

Eugen Berthold Friedrich Brecht é um dos autores alemães mais importantes do século XX, especialmente nas suas facetas de dramaturgo e de poeta. De formação marxista, Bertolt Brecht (seu nome artístico) dava grande importância à dimensão pedagógica das suas obras de teatro: contrário à passividade do espectador, sua intenção era formar e estimular o pensamento crítico do público. Para isso, servia-se de efeitos de distanciamento, como máscaras, entreatos musicais ou painéis nos quais se comentava a ação. Brecht expôs em escritos de caráter teórico e encenações modelares essa nova forma de entender o teatro.
O reconhecimento de sua genialidade chegou muito depressa: em 1922, foi concedido ao jovem Brecht o prêmio Kleist por Tambores da Noite. No entanto, no princípio dedicou-se à assessoria artística, trabalhando, por exemplo, para o Teatro Alemão de Berlim, de Max Reinhard, entre 1924 e 1926. Brecht consolidou-se como escritor independente logo após os musicais Ópera dos Três Vinténs (1928) – que bem mais tarde inspiraria a Ópera do Malandro, do brasileiro Chico Buarque de Holanda – e Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny (1930), escritos em colaboração com o compositor Kurt Weil. A crítica social contida nessas obras e seu humor cínico causaram escândalo na República de Weimar alemã.
A ascensão ao poder dos nazistas marcou o início de uma longa odisséia para Brecht, que, no final, o conduziu à Califórnia, onde permaneceu até o final da guerra e onde escreveu muitas das suas famosas obras teatrais: Galileu Galilei (1938), que aborda a responsabilidade da ciência, dando três pontos de vista distintos nas suas três versões; a peça antibelicista Mãe Coragem (1939); A Boa Pessoa de Setzuan (1941). Em colaboração com Lion Feuchtwanger, em As Visões de Simone Machard, transportou para a época da Segunda Guerra Mundial o mito de Joana d’Arc, personagem que já tinha abordado em 1930 em Santa Joana dos Matadouros, que só estreou em 1959. A obra contra Hitler, A Ascensão Irresistível de Arturo Ui, escrita no exílio na Finlândia, em 1941, só estreou depois da morte de Brecht. Após o regresso à Alemanha Oriental, fundou –- e, a partir de 1949, dirigiu, conjuntamente com sua mulher –- o Berliner Ensemble, onde se encenavam principalmente suas obras. Tal como as peças de teatro, a obra lírica de Brecht, publicada em quatro coleções, contém uma importante carga de crítica política e de ironia, embora também tenha composto poemas de amor muito pessoais. São especialmente conhecidas as Histórias do Sr. Keuner, coleção de breves episódios, que escreveu desde 1930 até a sua morte e foi publicada em 1958. – Do Klick Educação
     

Tantos relatos, Tantas perguntas

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastam os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem a ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os levantou?
sobre quem triunfaram os césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritavam pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia. Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu, além dele?

Uma vitória em cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava suas despesas?

Tantos relatos.
Tantas perguntas.
                                                            (Bertolt Brecht 1898 - 1956)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Essa historia é a favor de quê? Contra quem?

Quando travamos conhecimento com algum trabalho realizado, precisamos ter a mente aberta para perguntarmos: Essa História (escrita ou em outra mídia), é a História de quem? Para quem? A favor de quê? Contra quem?
É um procedimento que precisa ser assumido por todos aqueles que procuram compreender o Homem: nenhum estudo sobre o Homem pode prescindir de situá-lo no mundo, de perceber sua historicidade.
"O Homem é um ser do seu tempo" e portanto, nunca poderemos, para comprendê-lo, seja qual o nível de nossa preocupação, deixar de contextualizá-lo, isto é, de considerar a sua posição no mundo.
Quando foi realizado o tal trabalho? Onde? A pessoa, ou as pessoas que realizaram o trabalho viviam em qual sociedade? Qual sua posição social nessa sociedade? E assim poderemos compreender suas atitudes e sua visão de mundo.
Enfim, o que queremos deixar claro é que escrever História é assumir e marcar uma presença no mundo, em determinadas circunstâncias; é registrar os acertos e os erros cometidos, ou seja, o que foi considerado certo ou errado de acordo com os interesses de determinada posição social ideológica. Nesse sentido, esse registro terá amplo significado de possibilitar ao grupo para o qual a História está sendo escrita a superação de etapas - isto é, registrando vivências, você pode ter a ampla possibilidade de não incorrer nos mesmos erros.
Você, certamente, já ouviu falar que o surgimento da escrita é considerado o limite entre a Pré-História e a História. Muito bem, isso demostra o quanto esta habilidade sempre foi considerada importante. No entanto, perguntamos: Teria sido a escrita uma habilidade dominada pela totalidade dos homens daquela época?
A resposta é bastante simples: mesmo em termos atuais, de século XXI, ela seria negativa. Portanto, cabem as perguntas:
-Onde está a História dos que não podem eles próprios escrevê-la?
-Onde está a História dos escravos, dos servos, dos operários?
-Onde está a possibilidade de essas classes obreiras, registrando as experiências vividas, poderem nelas se basear para terem atitudes mais maduras, mais construtivas, que contribuam para a sua libertação e para o seu crescimento a partir de suas condições de vida?
-Assim, o que podemos concluir?
Primeiro, que a tarefa de registrar os acontecimentos é, de uma forma ou de outra, assumida por alguns elementos da sociedade, tais como os que se dedicam à Literatura, à Pintura, à Escultura, enfim, às Artes em geral, as quais na verdade são expressões do modo de vida de uma sociedade. Segundo, qua a técnica de escrever, tendo sido durante muito tempo um privilégio das elites dominantes, fez com que a História servisse principalmente para o aperfeiçoamento dos instrumentos de poder dessa elite.
Porém hoje, no século XXI, podemos ter uma visão otimista: a própria situação de opressão se constitui em um desafio aos oprimidos. Desafio a que os oprimidos, assumindo essa condição existencial de forma integral e consciente, poderão, unidos, superar. Só assim poderemos pensar na construção de uma sociedade realmente melhor, onde nossas necessidades mais reais e vitais seja atendidas, e os homens, renascidos, possam desenvolver suas possibilidades, possam tornar-se pessoas... Pessoas que, nesse movimento de busca e de criatividade, refletem e constroem uma presença, uma existência histórica, de modo que seu estar no mundo seja assumido como um trabalho transformador e libertador, como uma forma de amor... (Aquino & Denize & Oscar, História das Sociedades)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O aparecimento da Història

  " Chego a estranhar, muitas vezes, que ela seja tão monótona, pois grande parte dela deve ser invenção".
                  Catherine Morland escrevendo sobre a História  (Northanger Abbey, de Jane Austen cap. XIV)

A História, como forma de explicação, nasce unida à filosofia. Desde o inicio elas estão bastante ligadas; è a filosofia que vai tratar do conhecimento geral. Em seu inicio, o campo filosófico abrange embrionariamente todas as áreas que posteriormente se iriam afirmar como autônomas: a matemática, a biologia, a astronomia, a politica, a psicologia, etc. São os próprios gregos que descobrem a importância especifica da explicação Historia. Heródoto, de acordo com a orientação empreendida por Hecateu de Mileto, se propõe a fazer investigações, a procura da verdade. Heródoto è considerado o pai da Historia, pois è o primeiro a empregar a palavra no sentido de investigação, pesquisa. Sua obra mais antiga começa assim:
"Eis aqui a exposição da investigação realizada por Heródoto de Halicarmasso para impedir que ações realizadas palos homens se apaguem com o tempo".
Ele è o primeiro historiador grego que faz indagações entre seus contemporaneos, aproveitando, para escrever a Historia através das tradições orais e os registros escritos.
È nessa fase que o historiador passa a estar ligado à sua realidade mais imediata, espelhando a preocupação com questões do momento. Não vemos mais uma preocupação com uma origem distante, remota, atemporal (como existia no mito), mas sim a tentativa de entender um momento histórico concreto, presente ou aproximadamente passado. Há uma narração temporal cronológica, referente agora a uma realidade concreta. Não procuram mais conhecer uma realidade atemporal, mas a realidade especifica que viveu, a realidade de um determinado tempo e um determinado espaço.
A explicação não è mais atribuída a causas sobre-humanas, não são mais os deuses os responsáveis pelos destinos dos homens.
Estes começam a examinar os fatores humanos, como os costumes, os interesses econômicos, a ação do clima, etc., embora ainda se encontrem referencia aos mitos e aos deuses. (Borges, Vavy Pacheco. O que è Historia?)



segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mito

(...)
Os homens desde sempre, sentem necessidade de explicar para si próprios sua origem e sua vida. A grande pergunta é: Da onde viemos, quem somos, para onde vamos?
A primeira forma de explicação que surge nas sociedades primitivas é o mito, sempre transmitido em forma de tradição oral.
(...)
É preciso que reconheçamos no mito uma forma de pensamento primitivo, com sua lógica e coerência próprias, não sendo simples invenção ou engodo. O mito tem uma força muito grande no tipo primitivo de sociedade. Ele fornece uma explicação que para os povos que a aceitam é uma verdade.
O mito é sempre uma história com personagens sobrenaturais, os deuses. Nos mitos os homens são objetos passivos da ação dos deuses, que são respons´veis pela criação do mundo (cosmo), da natureza, pelo aparecimento dos homens e pelo seu destino.
Os mitos contam em geral a história de uma criação, do início de alguma coisa. É sempre uma história sagrada. Comumente se refere a um determinado espaço de tempo que é considerado um tempo sagrado; é um passado tão distante, tão remoto, que não o datam concretamente, não sabem quando ele se  deu. É um além da possibilidade de cálculos: referem-se a ele como "o princípio de todas as coisas", "os primordios". Os fatos mitológicos são apresentados um após os outros o que já mostra, portanto, uma seqüência temporal; mas o mito se refere a um pseudo-tempo e não a um tempo real, pois não é datadode acordo com nenhuma realidade concreta. Daí o mito mostra o eterno retorno, a repetição infinita: é um tempo circular, não linear.
(...)
Existem inúmeros mitos da criação do mundo (mitos cosmogônicos) que são vistos como exemplo de toda situação criadora.
(...)
No Egito, conta-se que, nos primeiros tempos, Osíris (deus da Terra, do sol poente, responsável pela fertilidade, e por isso também visto como o deus do Nilo) é assassinado por um outro deus, seu irmão Set (deus do vento do deserto, das trevas e do mal), e seu corpo, espalhado, por várias partes do país. Sua irmã-esposa Ísis (deusa da vegetação e das sementes), auxiliada por seu filho Hórus (deus-falcão e do sol levante), vais conseguir, através de palavras mágicas reunir todas as partes, e Osíris revive, indo morar entre os deuses. Muitos textos relatam diferentes formas de mito. Ele é visto como a luta entre a luz e as trevas, como a vida que vem do Nilo, que gera a fertilidade do Egito. Essa versão da morte e do renascimento de Osíris é a forma de os egipcíos explicarem a noção de imortalidade e sua eterna dependência da natureza. (Borges, Vavy Pacheco. Oque é história?)

domingo, 1 de abril de 2012

Que é História?

Desde que os gregos criaram a palavra História, o conteúdo atribuído ao termo tem variado segundo as visões de mundo dos historiadores. E você já sabe que a forma de os homens conceberem o mundo depende muito do modo de vida da própria sociedade que vivem e, principalmente, da posição ocupada dentro desta sociedade. Portanto, os fatores que possibilitam a produção ou retenção histórica estão condicionados pelo grau de consciência que os homens possuem de su contexto histórico - cultural e de sua posição na sociedade, no mundo...
Você, com isso, já pode imaginar que a definição do que é o ofício de historiador também tem sofrido modificações através do tempo: basicamente, podemos dizer que ele sempre teve por ofício a tarefa de reter os acontecimentos, isto é, de escrever, registrar as experiências vividas coletivamente. Porém a forma de registrar os acontecimentos evolui desde a simples descrição de fatos singulares sucedidos até a anáilise de um conjunto de fenômenos sociais que caracterizaram períodos longos de até vários séculos.
Ora, diante dessas colocações você pode estar se perguntando: Qual a importância de escrever, de registrar os acontecimentos?
O ato de escrever, de registrar a vida vivida significa uma conquista importante, extremamente importante. Por quê?
Quando você escreve, o ato mesmo de pegar no lápis e no papel exige uma certa atitude corporal e emntal, toda uma postura que favorece à reflexão. E se você escreve palavras que tem um significado real para você, que são verdadeiramente a expressão do que está vivendo biológica, intelectual e emocionalmente, você está organizando sua visão do mundo, organizando o seu pensamento, organizando a sua compreensão do mundo. E o mais importante, esse esforço significa um esforço no sentido de um encontro com outros pensamentos, pois, é uma procura da organização das idéias e da linguagem a ser utilizada para comunicá-las.
O homem vive e pensa, e escrevendo o que pensa sobre esse viver concretiza sua idéia - ou seja, a palavra escreta no papel é uma presença, é uma conquista de espaço no mundo, é, portanto, um documento.
Um documento que registra um momento, um tempo, um estágio de vivência, um estágio de pensamento, registra fatos que ocorrem em uma sociedade, em um determinado instante, em um determinado lugar. Ora, ninguém pode fugir à sua condição humana, ou melhor, à sua condição existencial em um tempo e espaço determinados. É esse ser e estar vivendo em uma sociedade que determina todas as nossas atitudes, inclusive, é claro, nossa maneira de escrever.

O termo HISTÓRIA

Os gregos foram os primeiros a utiliza-lo: histor, originalmente, significava aquele que apreende pelo olhar, aquele que sabe, o testemunho, aquele que testemunhou com seus próprios olhos os aocntecimentos, e "História" ("his" + "oren") significva apreender pelo olhar aquilo que se sucede dinamicamente, ou seja, testemunhar os acontecimentos, a realidade.