O dinheiro ainda não foi inventado e um sol de primavera amanhece sobre Lisboa. Desço à beira do cais e tenho uma súbita vontade de comprar um peixinho para o almoço. Na mão direita levo três maços de cigarros e entro no mercado. Chego à banca do peixe e pergunto à mulher:
- Oi, Tia Maria, quanto está o peixe?
- Um litro de azeite por quilo de peixe.
- E por acaso não aceita também três maços de cigarros?
Desolada, a mulher me responde:
- Eu não fumo, meu senhor...
Como eu quero um quilo de peixe, trato de procurar o azeiteiro. Encontro-o num dos cantos do mercado e lhe pergunto:
- Quanto vale o litro de azeite, ó tio?
- Vale cinco quilos de batata o litro.
- O senhor não aceita três maços de cigarros por um litro?
- Também podia ser. Mas tabaco já tenho para mais de uma semana. Do que eu preciso agora é de batatas.
Como quero um quilo de peixe trato de procurar a moça das batatas. Ela é uma mulher muito bonita e lhe pergunto:
- Quanto vale a batata, ó minha flor?
- Vale um garrafão de vinho tinto por cinco quilos, ó simpático...
- E tu não tens namorado, ó rosto bonito?
- E o que é que isso interessa, ó meu boneco?
- É que se tivesses, arranjava-te um presente para ele: três maços de cigarros...
- Ó filho, também pode ser! Venham de lá os três maços e leva daí os cinco quilos de batatas.
Agarro as batatas e vou trocá-las por um litro de azeite. Agarro o azeite e corro para a banca do peixe.
- Oi, Tia Maria, já tenho aqui o azeite! Pese lá um quilo de peixe...
- Azeite? Eu já não preciso de azeite, meu senhor! Já tenho azeite para mais de um mês...Do que eu preciso agora é de queijo fresco. Um quilo de peixe por um quilo de queijo fresco. Um quilo de peixe por um quilo de queijo fresco, ó freguês!
Entretanto o mercado já estava fechando.
Fui para casa.
Durante toda a tarde fiquei olhando muito desconsolado para a garrafa de azeite e nem ao menos tinha um cigarro para espairecer.
Comentário
História cômica para evidenciar como a ausência de um equivalente-geral dificulta a troca de mercadorias. O equivalente-geral é também uma mercadoria. Nesta história se, por exemplo, o azeite funcionasse como equivalente-geral, quem fosse ao mercado trocava o que levava por azeite e depois trocava o azeite pelo que precisava. A não ser que precisasse apenas de azeite... O azeite, desta forma, para além de ser um produto com o seu específico valor de uso, seria ainda a moeda, a mercadoria ante a qual todas as outras exprimem os seus respectivos valores (de troca). O azeite, para além de poder continuar a regar o bacalhau com batatas, seria também o equivalente-geral, a moeda, o dinheiro. Mas como a moeda também é uma mercadoria, o seu próprio valor (de troca) também é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a produzir. Se nesta história o azeite funcionasse como moeda, podíamos organizar a seguinte lista dos preços que, neste dia, vigoravam no mercado:
1 maço de cigarros = 0,33 litro de azeite
1 quilo de peixe = 1,0 litro de azeite
1 quilo de batatas = 0,2 litro de azeite
1 garrafão de vinho= 1,0 litro de azeite
Podemos, pois, definir o preço de uma mercadoria como a expressão monetária do valor de troca dessa mercadoria.
Em cada época, cada sociedade teve os seus equivalentes-gerais. Foram sal, o chá, as peles, o gado, os cereais, etc. Com a revolução metalúrgica e o desenvolvimento do comércio internacional, os objetos metálicos começaram a ser usados como equivalentes-gerais. E depois, não mais os objetos mas os lingotes do próprio metal. Ora o metal que mais resiste ao desgaste e à oxidação é o ouro. O ouro é também facilmente divisível e os fragmentos podem ser facilmente refundidos. Além do mais, o seu valor é relativamente estável porque, em milênios, pouco se avançou na técnica da sua extração. Ou seja: pouco variou, em milênios, o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir um quilo de ouro. Há ainda a acrescentar que o ouro tem um peso específico elevado, o que permite que, num pequeno volume, se possa concentrar elevado valor de troca: circunstância que facilita o seu transporte a longas distâncias.
Por tudo isto, o ouro acabou por ser um equivalente-geral internacionalmente reconhecido.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
domingo, 13 de maio de 2012
Sou um mestre ferreiro (Europa, ano 1.200)
Só faço ferraduras, ancinhos, sachos, foices, enxadas e charruas. O que recebo em troca já não está dando para viver. Dantes, por uma enxada, incluindo o ferro, recebia dez medidas de aveia ou uma braça de tecido de linho. Agora, pela mesma enxada, só consigo seis medidas de aveia. Trabalho cada vez mais e estou cada vez mais pobre. Não tenho terras e, se as tivesse, não saberia bem como trabalhá-las. Estou vendo que tenho mesmo de perder meio ano de trabalho para construir uma forja nova, daquelas que dão mais rendimento, como eu vi no burgo (cidade).
Comentário
É o artesão, o pequeno produto de mercadorias. Já não produz para uso próprio, mas para troca. Para ele, os produtos que produz não têm valor de uso, só têm valor de troca. E o valor de troca, também chamado apenas de valor, não depende só das horas do trabalho simples do ferreiro. Depende também das novas técnicas e do tempo médio de aprendizagem profissional. A esta qualificação profissional também se chama trabalho composto. Ou seja, o trabalho qualificado funciona como um múltiplo do trabalho simples; uma hora de trabalho de um mestre ferreiro vale, por exemplo, três horas de trabalho de um aprendiz de ferreiro. O valor das mercadorias passa assim a ser determinado,não mais pelo tempo de trabalho simples, mas pelo tempo de trabalho socialmente necessário para as produzir. A expressão "socialmente necessário" siginifica a quantidade de trabalho necessário dentro das condições médias de produtividade do trabalho de uma sociedade devidamente localizada no tempo e no espaço. Por isso é que o mestre ferreiro desta história, apesar de trabalhar cada vez mais, cada vez fica mais pobre porque, ainda, e contrariando uma tendência da sua época, não foi atualizando a sua técnica.
Estamos a entrar numa época em que a cooperação no trabalho começa a ser substituída por leis já independentes da vontade dos homens.
sábado, 12 de maio de 2012
Sou um servo da Gleba (ano 800)
Tenho as minhas terras mas, para poder tê-las, sou obrigado a trabalhar como diarista; a trabalhar três dias por semana nas terras do meu senhor. Para poder trabalhar melhor as minhas terras pedi ao mestre ferreiro que me fizesse duas enxadas novas e ele me disse que demorava um dia de trabalho para fazer as duas. Confirmei a encomenda. Para o ferro, dei-lhe 6 medidas de aveia. Na próxima semana tenho que ir trabalhar um dia nas terras do mestre ferreiro para compensá-lo do dia que vai perder com as duas enxadas. Estou vendo que um dia o mestre ferreiro, com tantos pedidos, deixará de cultivar pessoalmente as próprias terras.
Comentário
Assiste-se à troca rudimentar de produtos e serviços. Mas tanto o camponês, servo da gleba, como o ferreiro, como o senhor feudal, estão bem conscientes de que o valor de um produto mede-se pelo tempo de trabalho incorporado no produto.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Sou um camponês da Mesopotâmia
Trabalho o ano. Lavrando as terras, preparando diques e barragens, como indica o meu senhor; fazendo as sementeiras, regando, colhendo. Mas cada grão dá cem, e o meu senhor é muito rico e dá-me ferramentas de ferro, relhas de ferro para a charrua que os bois puxam e eu conduzo. O meu senhor tem artistas no seu palácio que fazem cerâmicas, pinturas e esculturas e outros fazem música e versos. O meu senhor conversa muito com os sacerdotes e, pelos astros, sabe quando o tempo vai mudar. Tenho sorte em trabalhar para um senhor tão rico. Fui prisineiro de guerra e quando já esperava a morte o meu senhor me comprou. Tenho comida e até me deram mulher e a minha mulher já me deu dois filhos. Trabalhamos para comer e comemos para trabalhar. Realmente, temos sorte em trabalhar para um senhor tão rico, mas nós vivemos para o trabalho e ele vive do nosso trabalho.
Comentário
É o início da civilização: a irrigação e as técnicas meteorológicas fazendo ou promovendo a revolução da agricultura e criando condições para um excedente permanente de gêneros. É este excedente, este sobreproduto social que facilita a divisão da sociedade em classes: uma parte abandona o trabalho produtivo e passa a ter ócios à custa da outra parte, do trabalho da outra parte, escravos ou servos. É este permanente sobretudo social que facilita a fundação de impérios. Senhores e escravo! Escravos em cuja manutenção e reprodução os senhores vão investindo para que se mantenha sempre a classe de explorados, cuja existência é indispensável à classe dos exploradores.
Mas não é só negativa a função desta classe ociosa. Ela também promove o desenvolvimento de atividades socialmente necessárias, como as técnicas meteorológicas e de irrigação, as técnicas metalurgicas. Promove ainda o desenvolvimento das artes. No interesse próprio, esta classe ociosa vai promovendo o desenvolvimento de atividades humanas de que um dia toda a humanidade se beneficiará.
obs.: Mesopotâmia, região do Oriente Médio que fica entre o Rio Tigre e o Rio Eufrates, hoje corresponde ao Iraque.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Sou um homem do Neolítico
Os homens da minha tribo caçam. As mulheres colhem frutos e fazem sementeiras. As mulheres são previdentes: em vez de comerem todos os grãos de cevada guardam alguns para semear. E também criam cabras e por isso tomamos leite todos os dias e quando a caça falta durante muito tempo, matamos cabritos e comemos. Diz a minha avó que a sua avó dizia que antes a nossa tribo passava fome. E porque já vai havendo comida para todos, já não é preciso que todos os homens saiam para a caça todos os dias. A maior parte do tempo, poruqe já estou ficando velho, fico fazendo machados e setas de pedra para os caçadores da nossa tribo. Outros preparam peles de cabra para vestirmos. O que todos produzem é de todos.
Comentário
É a revolução neolítica (pedra polida). Os homens deixam de estar inteiramente submetidos às forças cegas da natureza. Aprenderam já a controlar, pela agricultura e domesticação de animais, a produção de gêneros alimentícios. Passa a haver um ligeiro excedente de produção que facilita a divisão social do trabalho e a programação econômica, as quais, por sua vez, provocam novo aumento do excedente.
obs. Neolítico, período da Pré-história que vai de 10.000 A.C até 4.000 A.C. Também conhecido como da "Pedra Polida". Foi o período que o homem criou os instrumentos de trabalho e passou a desenvolver a agricultura.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Sou um homem do Paleolítico
A minha tribo tenta caçar. As vezes consegue. Então fazemos uma festa e comemos. Empanturramos-nos para compensar a maior parte do tempo em passamos fome. Quando acabam as pedras lascadas e o porretes, fazemos outros. Ontem deixamos de matar um canguru porque as pedras e os porretes tinham acabado. Hoje começamos a lascar outras pedras e a fazer outros porretes. Depois vamos sair e caçar. Temos que caçar. Sempre temos que caçar. As mulheres recolhem alguns frutos e os homens caçam. Quando acabam os frutos e a caça, emigramos para outro território.
Comentário
Sociedade primitiva em que o produto era todo imediatamente consumido pela população esfomeada. Nunca havia excedentes de produção. Toda a atividade econômica resumia-se em conseguir alimentos. Se assim não fosse, a comunidade morreria de fome. Início de uma divisão de trabalho entre os sexos. Não há qualquer planejamento de atividade econômica. A carência, a falta permanente de gêneros levava a população a práticas cruéis, mas indispensáveis, como o infanticídio. Comunidade humana inteiramente ao sabor das forças naturais.
obs. Paleolítico, período da Pré-história do homem, também conhecida como da "Pedra Lascada", e que fi de 600.000 A.C. No final desse período se desenvolveu o Homo sapiens. O homem era nômade e vivia da coleta de alimentos, sem cultivá-los.
HISTÓRIA DE ECONOMIA - Fernando C. da Silva
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Reflexão sobre bibliografia
Diz-se que a infância é o tempo mais feliz da existência. Creio que não é sempre o caso. Poucos são aqueles cuja infância é feliz. A idealização da infância provida de tudo, e abundantemente, a infância sem nuvens, nas famílias hereditáriamente ricas e instruídas, toda carinho e brinquedos, fica na memória como uma clareira inundada de sol, à beira do caminho da vida. Os grandes senhores da literatura ou os plebeus que os cantaram, exageraram esta idéia da infância toda penetrada de espírito aristocrático. A imensa maioria, se olhar para trás, se aperceberá, ao contrário, sómente de uma infância sombria, mal alimentada, escravizada. A vida dá os seus golpes nos fracos, e quem será mais fraco do que as crianças?
Minha infância não conheceu fome nem frio. Quando nasci, a família dos meus pais possuía uma certa abastança. Mas era o bem estar rigoroso da gente que sai da indigência para se elevar e que não tem nenhuma vontade de parar a meio caminho. todos os músculos eram tendidos, todas as idéias dirigidas no sentido do trabalho e da acumulação. Neste gênero de existência, o lugar reservado às crianças era mais que modesto. Não conheciamos a necessidade, mas também não conhecemos tampouco as larguezas de vida, nem os seus carinhos. A infância não foi para mim uma clareira ensolarada como para uma minoria ínfima; também não foi a caverna da fome, dos maus tratos e dos insultos, como acontece à maioria. Foi uma infância cinzenta, numa família pequeno-burguesa, na aldeia, num canto perdido, onde a natureza é larga, mas os costumes, as opiniões, os interesses são estreitos, mesquinhos.
A atmosfera espiritual que envolveu os meus primeiros anos e ambientes em que decorreu depois minha vida consciente são dois mundos diferentes, separados um do outro não só por dezenas de anos e por grandes espaços, mas também pelas arestas de grandes acontecimentos e erosões interiores, menos notáveis, mas que não são menos consideráveis para o indivíduo. Quando esbocei pela primeira vez estas recordações, pareceu-me mais de uma vez que não descrevia minha infância, mas uma viagem de outrora para um pís logínquo. Tentei mesmo contar o que tinha vivido, falando de mim em terceira pessoa. Mas esta forma convencional cai muito fácilmente na mera literatura, e é isso que eu queria evitar antes de tudo.
Minha Vida - Leon Trotsky. 2ª edição. Paz e Terra - Tradução Lívio Xavier, 1879-1940.
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